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Concertos

Crónica do primeiro concerto de Céline Dion em Paris

O regresso de Céline Dion aos concertos foi um sucesso absoluto e a imprensa mundial não poupou elogios à sua força e talento.

A seguir, leia uma das melhores crónicas sobre o concerto de ontem, escrita pelo jornalista Hugo Dumas, do jornal quebequense La Presse, que já acompanhou muitos concertos e momentos de Céline Dion ao longo dos anos.

Transcrição jornal La Presse:

A rara doença neurológica de Céline Dion modificou, naturalmente, a sua voz. Está menos flexível, potente e encorpada do que antes, mas ainda consegue aguentar duas horas e meia de concerto e encher um grande anfiteatro como a Plenitude Arena de Paris, onde a diva de Charlemagne fez o seu grande regresso, na noite de sábado, perante uma plateia de espectadores franceses que pecou pelo pouco entusiasmo.

No Quebeque, esta ressurreição inesperada de Céline teria abalado e emocionado muito mais o Centre Bell, disso não há dúvida. Achei o público francês tímido — ninguém ligava a luz do telemóvel —, frio e menos entusiasta do que em Montreal ou até em Las Vegas. Como se os fãs parisienses não se apercebessem de que estavam praticamente a assistir a um milagre musical.

Logo no início, depois de um atraso de 48 minutos, a ovação reservada à cantora de 58 anos não atingiu, por exemplo, a duração das que se ouvem no Festival de Cannes.

Céline, essa, ficou emocionada até às lágrimas. Tanto que, na sua primeira canção, On ne change pas, os soluços impediram-na de terminar um verso. O seu precioso instrumento tremia de nervosismo e chegou-se mesmo a questionar se ela seria capaz de chegar ao fim da noite.

«Tinha prometido a mim mesma que não ia chorar. Não estou a cumprir a minha promessa», desculpou-se. O público apoiou-a e foi um momento comovente, embora imperfeito. É esta a Céline de que gosto: emotiva, sensível, serena e divertida.

Ao contrário dos rumores que circulavam, este primeiro espetáculo de uma série de 16 na Plenitude Arena não contou com convidados especiais. Todas as atenções estiveram viradas para Céline, e era assim que devia ser: ela merecia todos os aplausos.

Em Destin, que também demorou algum tempo a arrancar, enquanto Céline procurava reencontrar os seus pontos de referência, foi o guitarrista Kaven Girouard quem ficou encarregado do grande solo. Em Beauty and the Beast, a parte de Peabo Bryson, que morreu em junho passado, foi entregue ao cantor de apoio Barnev Valsaint. E o segundo cantor masculino do quarteto de coristas, Jordan Lévesque, interpretou a parte de Jean-Jacques Goldman na contagiante canção J’irai où tu iras.

Foi, portanto, uma noite de reencontros e de celebração para a família profissional de Céline, que certamente se terá sentido totalmente confiante, rodeada pela sua equipa de confiança, 100% quebequense.

Sobre o seu estado de saúde, Céline Dion confessou aos mais de 30 000 espectadores presentes que o caminho da recuperação tinha sido difícil e que seguira «por uma estrada mais longa do que o previsto». Mas ela acreditava. E conseguiu graças «ao apoio e ao amor do seu público».

«Agarrei-me com todas as forças», murmurou ao microfone.

Também se sentiu um arrepio percorrer a sala quando Céline pôs em palavras a sua história de resiliência e determinação. «É verdade, aconteceu mesmo. Era uma promessa. Estou de pé em palco», recordou Céline, cuja família ocupava as primeiras filas da plateia.

A um terço deste concerto de duas horas e meia, durante o qual fez cinco mudanças de vestido — todos elegantes, escuros e clássicos —, Céline lançou a frase «estou bem», antes de continuar: «Aprendi a viver com esta fragilidade. De tanto conviver com ela, aprendi a dominá-la. E decidi fazer dela uma força para viver.» Uma salva de palmas mais do que merecida.

E agora, o conteúdo do espetáculo. É metade em francês, metade em inglês, com uma surpresa em italiano. O primeiro bloco de nove canções — num total de 29, contando com o medley — foi uma sucessão de megasucessos, entre os quais Because You Loved Me, Encore un soir, Les derniers seront les premiers, Tout l’or des hommes, The Power of Love, My Heart Will Go On e Beauty and the Beast. Um equilíbrio perfeito entre as baladas e os temas mais ritmados.

Como previsto, recorreu abundantemente ao repertório de Jean-Jacques Goldman, ao seu melhor material, com a possível exceção de Dansons, que também não chegou a entusiasmar na noite de sábado.

No enorme palco, onde giram duas estruturas cinzentas e curvas, de estilo brutalista, Céline desloca-se da esquerda para a direita, mas já não dança com a mesma energia de antes do diagnóstico da síndrome da pessoa rígida. Ninguém lhe levará a mal que poupe as suas forças dessa forma.

Além disso, os vídeos de transição do espetáculo evocam a estética dos filmes Dune, de Denis Villeneuve, e ilustram a travessia do deserto vivida pela intérprete quebequense ao longo dos últimos seis anos. É muito bonito.

Na décima canção, The Chase, retirada do álbum Courage, Céline enganou-se e pediu à orquestra que recomeçasse desde o início. É raro que isso lhe aconteça e, mais uma vez, ninguém lhe levará a mal. Estes erros tornam-na humana, vulnerável e autêntica. A pressão sobre a «Céline-máquina», que conseguia sempre executar os seus momentos de virtuosismo, deve ter sido extremamente desgastante.

Céline foi buscar algumas canções menos conhecidas do seu repertório, como The Chase, Je chanterai ou Des milliers de baisers, que fizeram vários fãs sentarem-se. Em contrapartida, foram Ziggy e S’il suffisait d’aimer que mais resultaram em Paris. E quando Céline Dion atingiu a nota impossível de All By Myself, soltou um suspiro de alívio. E nós também.

Um dos momentos altos aconteceu quando Céline Dion, envolta num casaco de penas, entoou Ebben? Ne andrò lontana, uma ária da ópera La Wally, que Maria Callas imortalizou. Céline, que sempre quis interpretar Callas no cinema, foi impressionante ao revisitar este clássico italiano de 1892.

Outro bom momento foi o da presença do coro gospel, que foi trazido para Love Can Move Mountains, The Prayer e It’s All Coming Back to Me Now.

Ao misturar I Feel Love, de Donna Summer, I’m Alive, That’s the Way it Is e Sweet Dreams, dos Eurythmics, percebeu-se que Céline estava a divertir-se, pois este segmento disco contrastava com o ambiente mais solene de todo o concerto. Ninguém em palco usava cores vivas; todos vestiam preto ou algum tom de cinzento-escuro.

Alguns momentos na parte final do espetáculo perderam algum ritmo. Longos segundos de silêncio chegaram quase a fazer pensar que tinha ocorrido uma falha técnica. Grande ponto negativo: o espetáculo termina de forma abrupta, sem encore, enquanto Céline exorta os seus fãs a permanecerem prudentes. A rever, digamos assim.

Durante a magnífica Pour que tu m’aimes encore, percebeu-se que a voz de Céline, hesitante, já não era tão afinada e precisa como outrora. E quando Céline reencontrava a sua lendária forma vocal, surgia a questão: estaria a ser apoiada por gravações pré-registadas? Não seria a primeira a fazê-lo, atenção.

Para os meios de comunicação social de todo o mundo, o sprint de Céline chegou ao fim. Para a cantora de Charlemagne, começa agora uma longa maratona que não se prevê nada fácil. Força, Céline, e olá, Paris, obrigado.

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